A disputa global por minerais críticos, intensificada recentemente no cenário internacional, colocou o Brasil no centro da nova geopolítica da indústria automotiva elétrica. O movimento ocorre em meio ao avanço da eletrificação e à busca de Estados Unidos e China por segurança no fornecimento de insumos estratégicos. O país ganhou relevância por concentrar reservas expressivas de recursos essenciais para baterias e motores elétricos, além de apresentar um potencial ainda pouco explorado na cadeia industrial.
O Brasil figura entre os principais detentores globais de minerais como grafite, terras raras e nióbio, além de ampliar sua presença no lítio. Esses insumos são fundamentais para a eletrificação. O lítio, o níquel, o cobalto e o grafite são utilizados na produção de baterias, enquanto as terras raras têm aplicação principalmente em motores elétricos e componentes eletrônicos. Apesar de um entendimento recorrente no mercado, as baterias não utilizam terras raras, que estão associadas a outras partes do sistema elétrico.
Mesmo com a abundância de recursos, o país ainda atua majoritariamente como exportador de matéria-prima. O processamento e a fabricação de componentes seguem concentrados na China, que domina etapas estratégicas da cadeia. Esse cenário tem motivado a movimentação dos Estados Unidos, que buscam reduzir a dependência chinesa por meio de acordos e investimentos em outros países, incluindo o Brasil.
Um dos exemplos é o aporte de US$ 565 milhões na mineradora Serra Verde, direcionado à produção de terras raras. Paralelamente, autoridades americanas ampliam as negociações para fortalecer parcerias com o país. A estratégia busca diversificar a cadeia global de fornecimento e garantir acesso a insumos considerados críticos para a transição energética.
No Brasil, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura cautelosa e estruturado políticas voltadas aos minerais críticos. A estratégia inclui a criação de conselhos e programas com foco na industrialização e na agregação de valor. O objetivo é evitar a simples exportação de minério e incentivar etapas como refino, química de materiais e produção de componentes.
A discussão ganhou repercussão após declarações do senador Flávio Bolsonaro, que afirmou que o Brasil poderia ser uma solução para os Estados Unidos na disputa com a China. O episódio evidenciou um debate mais amplo sobre o papel do país na nova economia dos veículos elétricos e sobre o nível de protagonismo que deve buscar na cadeia global.
Esse cenário se conecta à recente onda de investimentos industriais no setor automotivo brasileiro. Montadoras como BYD, GWM e a parceria Renault com a Geely avançam em projetos locais, enquanto grupos como Changan, GAC e Leapmotor também anunciaram produção nacional. Ao mesmo tempo, a WEG investe na construção de uma fábrica de baterias, inicialmente voltada a aplicações estacionárias.
A expansão industrial cria demanda local por componentes como baterias, motores elétricos e sistemas eletrônicos. No entanto, o país ainda depende de importações, principalmente da China, para itens estratégicos como células de bateria, ímãs de terras raras e materiais processados. Mesmo com a produção local de veículos, os componentes mais relevantes continuam vindo do exterior.
A formação de uma cadeia nacional tende a ocorrer de forma gradual. O processo começa com a montagem de baterias a partir de células importadas, avança para a produção local dessas células e, em um estágio mais avançado, integra etapas como refino e produção de materiais. A nova indústria automotiva contribui ao gerar demanda, mas não garante, por si só, a consolidação dessa estrutura.
Foto: José Cruz/Agência Brasil

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