Tem coisa que, quando a gente vê, incomoda. E a diferença de preço do Chevrolet Onix entre Brasil e Paraguai é exatamente esse tipo de situação. Estamos falando do mesmo carro, produzido na mesma fábrica brasileira, mas vendido por cerca de R$ 101.790 aqui e por algo próximo de R$ 63 mil no Paraguai. Uma diferença que passa facilmente dos R$ 39 mil. E aí surge a pergunta inevitável, o problema é o carro ou é o sistema?
Antes de tudo, vale esclarecer de onde vêm esses números. Os valores foram consultados diretamente nos sites oficiais da Chevrolet no Brasil e no Paraguai. No mercado brasileiro, o Onix parte de R$ 101.790, conforme o site da marca. Já no Paraguai, o mesmo modelo aparece anunciado por cerca de US$ 11.990, o equivalente a aproximadamente R$ 63 mil na cotação atual. Ou seja, não é percepção, é dado concreto.
Do ponto de vista de mercado, essa distorção não é coincidência. É estrutural. O Brasil tem uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo para automóveis. Quando se somam IPI, ICMS, PIS, Cofins e outros custos indiretos, o carro deixa de ser apenas um produto e passa a incorporar um alto peso tributário. No fim da cadeia, é o consumidor quem paga essa conta, muitas vezes sem alternativa.
Enquanto isso, o Paraguai opera com uma lógica mais simples. Menos impostos, menos custos e, consequentemente, um preço final mais competitivo. O curioso é que o carro sai do Brasil, cruza a fronteira e, mesmo com logística envolvida, chega mais barato do que no próprio mercado de origem. Isso escancara um problema que vai além da indústria automotiva e aponta para o ambiente de negócios.
O posicionamento do produto muda completamente de acordo com o mercado. No Brasil, o Onix já parte de um patamar acima dos R$ 100 mil, entrando em uma faixa em que o consumidor pensa duas vezes, compara com usados, avalia financiamento e, muitas vezes, adia a compra. No Paraguai, ele se torna um carro mais acessível, com uma decisão de compra mais direta.
Isso impacta a percepção de valor. O mesmo produto pode ser visto como caro ou competitivo, dependendo do contexto. E percepção, no fim das contas, é determinante no comportamento de compra.
Outro ponto pouco discutido é o efeito disso na confiança do consumidor. Ao perceber que o mesmo carro custa muito menos logo ali, do outro lado da fronteira, ele passa a questionar não apenas o preço, mas todo o sistema. Isso pode enfraquecer a relação entre marca, produto e cliente.
É claro que não se trata apenas de atravessar a fronteira e comprar. Existem regras, impostos de importação e burocracia. Ainda assim, o simples fato de essa comparação fazer sentido já revela o tamanho da distorção.
No fim, o caso do Onix é um retrato claro do chamado custo Brasil. Não se trata de um modelo específico, mas de como impostos, custos e estrutura acabam encarecendo um produto no próprio país onde ele é produzido.
A pergunta que fica é até que ponto o consumidor brasileiro continuará pagando essa conta sem questionar. E, mais do que isso, quanto essa diferença está limitando o crescimento do próprio mercado automotivo no país.

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