A indústria automotiva chinesa acelerou, nos últimos meses, a integração de baterias avançadas, novas arquiteturas eletrônicas e sistemas de condução autônoma em projetos já direcionados à produção, indicando que o carro elétrico pode ser redefinido até 2030. O movimento ocorre na China e envolve montadoras e fornecedores que passaram a desenvolver, quase de forma simultânea, pesquisa, engenharia e industrialização, com o objetivo de antecipar ganhos de autonomia, segurança, eficiência energética e integração eletrônica.
Um dos principais exemplos é a iniciativa da FAW, que apresentou a integração de uma bateria híbrida líquido-sólida com autonomia estimada de até 1.000 quilômetros em um projeto de veículo elétrico de longa autonomia. A tecnologia utiliza eletrólito híbrido e representa uma etapa intermediária entre as baterias atuais e o estado sólido completo. A vantagem é permitir ganhos relevantes de densidade energética e segurança sem exigir ruptura total da infraestrutura produtiva existente, reduzindo riscos industriais e acelerando a escala.
Paralelamente, encontros recentes da indústria de baterias na China apontaram um cronograma coordenado entre montadoras e fornecedores como CATL, BYD, Chery e GAC Aion para acelerar a introdução de tecnologias semissólidas e de estado sólido ainda na segunda metade da década. Na prática, isso sugere que parte dos avanços previstos para o futuro já começa a entrar na fase industrial.
Ao mesmo tempo, a transformação não se limita às baterias. Fornecedores chineses e montadoras locais trabalham para colocar sistemas completos de freio eletromecânico, conhecidos como brake by wire, em produção em escala limitada a partir de meados desta década, com expansão gradual nos anos seguintes. A evolução inclui também direção eletrônica avançada e o chamado chassi digital, indicando uma migração do carro mecânico tradicional para um veículo definido por software e eletrônica integrada.
Nesse novo modelo, o automóvel deixa de ser um conjunto de sistemas independentes e passa a operar como uma plataforma tecnológica centralizada. Essa base estrutural é considerada fundamental para viabilizar níveis mais avançados de condução assistida e autonomia veicular, que passam a depender de um conjunto integrado de hardware, software e arquitetura eletrônica.
Projetos de robotáxis reforçam esse movimento. A Pony.ai, em parceria com a GAC Toyota, já desenvolve iniciativas baseadas em veículos elétricos de produção, com planos declarados de expansão da frota comercial nos próximos anos. A estratégia prioriza aplicações em frotas, nas quais a escala econômica tende a acelerar o desenvolvimento tecnológico e a redução de custos.
O avanço simultâneo dessas frentes ocorre em um contexto de reorganização geopolítica da indústria. Com Estados Unidos e Europa reforçando barreiras comerciais e políticas industriais próprias, a expansão das montadoras chinesas tende a ganhar força em mercados emergentes, como América Latina, Sudeste Asiático e Oriente Médio, que passam a ocupar posição estratégica no mapa global da eletromobilidade.
Modelos elétricos compactos recentemente apresentados na China já combinam autonomias competitivas, recarga rápida e pacotes relevantes de assistência à condução, indicando uma elevação do padrão tecnológico mínimo esperado mesmo em veículos de entrada. Esse processo amplia a pressão competitiva sobre cadeias industriais de outros países.
Para o Brasil, o cenário pode significar acesso mais rápido a tecnologias que historicamente demoravam anos para chegar fora dos mercados centrais. Ao mesmo tempo, aumenta a exigência sobre fornecedores e montadoras instaladas no país, diante de um patamar mais elevado de eficiência energética, integração eletrônica e conteúdo tecnológico.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Leave a Reply