A escalada do conflito no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado global de petróleo e pode provocar aumento no preço dos combustíveis no Brasil. O movimento ganhou força após ofensivas militares conduzidas por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã, que elevaram o barril do petróleo Brent para acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022. A alta ocorre em meio ao aumento do prêmio de risco nos mercados internacionais diante da ameaça às rotas estratégicas de energia.
Um dos pontos de maior preocupação é o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, volume equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial, segundo a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos. Em momentos de tensão geopolítica, mesmo a possibilidade de interrupção nesse fluxo já é suficiente para elevar os preços da commodity e pressionar os custos de transporte no mundo.
No Brasil, o impacto tende a aparecer inicialmente no preço dos combustíveis e pode se espalhar pela economia. A gasolina possui peso relevante na inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o combustível representa cerca de 5,07% da cesta do indicador. No IPCA-15 de fevereiro, os combustíveis já haviam registrado alta, com aumento de 1,30% na gasolina e de 2,51% no etanol.
Quando o petróleo sobe e o combustível encarece, o primeiro efeito costuma aparecer no transporte de cargas. Fretes mais caros pressionam o preço de alimentos, produtos industriais e serviços, ampliando o impacto inflacionário para diferentes setores da economia. Esse movimento ocorre em um momento sensível para o cenário macroeconômico brasileiro, já que o IPCA-15 de fevereiro registrou alta de 0,84% e acumulou 4,10% em 12 meses.
Para o setor automotivo, o aumento do combustível afeta tanto o custo de uso dos veículos quanto a logística da indústria. O encarecimento do transporte eleva despesas no deslocamento de peças e na distribuição de veículos para concessionárias, o que pode pressionar os preços finais em um mercado fortemente dependente de crédito e sensível às variações de custo.
Outro fator que amplia as discussões envolve a defasagem dos preços praticados nas refinarias brasileiras em relação ao mercado internacional. Levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis indica que, nas condições atuais de mercado, a gasolina vendida nas refinarias estaria cerca de R$ 1,22 por litro abaixo da paridade internacional, enquanto, no diesel, a diferença seria de aproximadamente R$ 2,74 por litro.
A Petrobras, no entanto, deixou de seguir automaticamente a paridade internacional desde 2023 e passou a adotar uma política que considera também as condições do mercado interno. A companhia informou que segue monitorando o cenário antes de tomar qualquer decisão sobre eventuais reajustes.
A volatilidade no preço do petróleo ocorre ainda em um momento de transição tributária no Brasil. Em 2026 começam as alíquotas experimentais da Contribuição sobre Bens e Serviços e do Imposto sobre Bens e Serviços, fase considerada de adaptação ao novo sistema fiscal. Nesse contexto, empresas enfrentam o desafio de lidar simultaneamente com custos externos mais altos e maior complexidade de apuração tributária.
Se a tensão geopolítica diminuir rapidamente, parte da pressão sobre o petróleo pode recuar. Caso o conflito se prolongue, no entanto, os efeitos tendem a se espalhar pela economia global e chegar ao Brasil por meio de custos mais elevados de energia e de uma inflação potencialmente mais persistente.
Foto: Agência Brasil/Fernando Frazão

Leave a Reply