A Raízen anunciou um processo de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras no Brasil. O pedido foi apresentado após a companhia enfrentar forte deterioração financeira causada por investimentos elevados, condições climáticas adversas e incêndios florestais que reduziram a produtividade agrícola e pressionaram seu fluxo de caixa. Segundo especialistas em reestruturação corporativa, trata-se do maior processo extrajudicial já realizado no país.
No pedido apresentado aos credores, a empresa informou que o passivo total relacionado à reestruturação soma R$ 98,63 bilhões. Desse montante, R$ 65,14 bilhões correspondem a créditos sujeitos ao plano de recuperação, enquanto R$ 33,49 bilhões são créditos intercompany, ou seja, obrigações financeiras existentes entre empresas do próprio grupo controlador. A companhia também alertou recentemente sobre incertezas relevantes em relação à sua capacidade de continuidade operacional.
Apesar do elevado nível de endividamento, a Raízen afirmou que as dívidas com clientes, fornecedores, revendedores e parceiros comerciais não serão incluídas no plano de reestruturação. Esses compromissos, considerados essenciais para a continuidade das operações, permanecerão vigentes e continuarão sendo cumpridos normalmente, conforme os contratos existentes.
A empresa informou ainda que, embora a maior parte da dívida tenha prazo de longo prazo, com vencimento médio de 7,6 anos, aproximadamente R$ 13 bilhões precisarão ser pagos apenas nos próximos 24 meses em amortizações. Esse volume de desembolsos no curto prazo contribuiu para a decisão de iniciar o processo de renegociação financeira.
A Raízen é uma das maiores companhias do setor de energia e biocombustíveis do mundo. O grupo é o maior processador global de cana-de-açúcar e também atua como um dos principais comercializadores de etanol e açúcar. No segmento de distribuição de combustíveis, a empresa ocupa a segunda posição no Brasil e na Argentina.
A companhia é controlada pela Shell e pela Cosan, conglomerado industrial criado pelo empresário Rubens Ometto, que detêm, cada uma, 44% de participação. Com mais de 34 mil funcionários, a empresa controla 35 usinas de produção de açúcar, etanol e bioenergia. Na safra 2024-2025, a Raízen registrou receita líquida de R$ 255,3 bilhões, produziu mais de 5 milhões de toneladas de açúcar, mais de 3 bilhões de litros de etanol e gerou mais de 1,9 GWh de energia renovável.
Mesmo com essa escala operacional, o desempenho financeiro recente provocou forte desvalorização da companhia na bolsa. A Raízen realizou, em 2021, o maior IPO daquele ano no Brasil, levantando cerca de R$ 6,9 bilhões. Na ocasião, as ações foram precificadas a R$ 7,40, e a empresa alcançou valor de mercado superior a R$ 76 bilhões.
Desde então, o valor de mercado da companhia sofreu queda expressiva. Em outubro de 2021, a empresa valia aproximadamente R$ 76,298 bilhões. Em março de 2026, esse valor havia recuado para cerca de R$ 5,378 bilhões, representando perda próxima de R$ 71 bilhões.
De acordo com fato relevante divulgado pela empresa, o plano de recuperação extrajudicial já conta com a adesão de credores que representam mais de 47% das dívidas financeiras envolvidas. A companhia terá agora prazo de 90 dias, a partir do processamento do pedido, para obter o percentual mínimo necessário para homologação do plano e vincular a totalidade dos créditos sujeitos às novas condições de pagamento.
A proposta de reestruturação pode incluir diferentes medidas financeiras e societárias. Entre elas estão a venda de ativos, a capitalização da companhia pelos acionistas, a conversão de parte das dívidas em participação acionária, a substituição de créditos por novas estruturas de financiamento e possíveis reorganizações societárias para separar determinadas operações do grupo.
A Shell declarou que apoia o processo de reorganização financeira e informou que pretende aportar R$ 3,5 bilhões para fortalecer a companhia durante a reestruturação. A Cosan, por sua vez, afirmou, em comunicado ao mercado, que o processo não terá impacto sobre suas operações, obrigações ou estrutura de capital. Segundo a empresa, suas atividades e relações comerciais permanecem inalteradas.
Foto: Divulgação

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