Houve um tempo em que comprar um carro exigia dinheiro. Hoje, exige fé. Fé de que o emprego continuará existindo, de que a prestação caberá no bolso até 2032 e de que o banco suportará o atraso antes de tomar o veículo de volta em algum pátio iluminado por LEDs e promoções patrióticas.
O dado mais curioso do mercado automotivo brasileiro em 2026 talvez não seja o crescimento dos financiamentos. É o fato de eles seguirem crescendo justamente quando a inadimplência alcança o maior nível desde 2017 na série histórica da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras, a ANEF.
Segundo a entidade, o índice de atrasos acima de 90 dias entre pessoas físicas chegou a 5,85% em fevereiro de 2026. Nos atrasos entre 15 e 90 dias, o percentual também avançou, passando de 6,21% para 6,68% em um ano.
A lógica recomendaria cautela. Mas o setor decidiu acelerar. Ainda de acordo com a ANEF, o financiamento de veículos cresceu 23,1% em março na comparação anual. Foram 703 mil unidades financiadas entre automóveis, motos e pesados. No acumulado do primeiro trimestre, o mercado atingiu 1,893 milhão de financiamentos, alta de 12,8% sobre 2025 e o maior volume dos últimos dez anos.
Traduzindo para o português claro: o painel de alerta está aceso, mas o mercado continua acelerando. Não se trata exatamente de irresponsabilidade. Trata-se de sobrevivência industrial.
O Brasil construiu uma indústria automotiva que passou a depender estruturalmente do crédito para continuar respirando. Os carros ficaram caros demais para a renda média brasileira. A própria dinâmica do setor passou a funcionar baseada em parcelamentos de longo prazo.
Segundo a ANEF, a carteira de crédito automotivo já soma cerca de R$ 550 bilhões, enquanto as concessões mensais giram em torno de R$ 23,3 bilhões. Sem financiamento, boa parte das vendas simplesmente desapareceria. Então, o mercado passou a conviver com um nível maior de risco para manter a roda girando.
A montadora precisa produzir para manter a fábrica operando. O concessionário precisa vender para sustentar margem. O banco da montadora precisa financiar para alimentar ambos. E o mercado inteiro depende do volume para continuar tentando preservar a normalidade.
É por isso que, mesmo com a taxa Selic em 14,50%, o crédito continua avançando. Não porque o cenário esteja saudável, mas porque parar seria pior.
Existe ainda um detalhe pouco comentado. O banco sabe que o carro pode ser retomado. Diferentemente do crédito pessoal sem garantia, o financiamento automotivo possui um ativo físico que pode ser recuperado e revendido em caso de inadimplência. Isso reduz parcialmente o risco sistêmico da operação e permite maior tolerância ao aumento dos atrasos.
Mas os sinais de desgaste começam a aparecer. Dados da Trillia, unidade de inteligência da B3, mostram que os financiamentos cresceram 11,8% em abril, alcançando 634.587 unidades, melhor resultado para o mês desde 2008. Ao mesmo tempo, a Tabela Auto B3, desenvolvida em parceria com a Bright Consulting, aponta queda média de 1,55% nos preços dos veículos usados em abril.
As maiores baixas ocorreram justamente em segmentos de maior volume, como picapes compactas, com retração de 2,3%, picapes médias, com queda de 2%, e compactos, com redução de 1,6%. Isso normalmente acontece quando o mercado precisa aumentar a liquidez para continuar girando estoque.
Outro sinal importante está no perfil da expansão. Segundo a Trillia, as motocicletas acumulam crescimento de 16% nos financiamentos entre janeiro e abril, acima dos automóveis, que avançaram 12,7%. Em geral, isso indica busca por produtos de menor tíquete e prestações mais acessíveis em um ambiente de renda pressionada.
O mais impressionante talvez seja a naturalidade com que o setor trata esse cenário. Como se fosse perfeitamente razoável expandir crédito em ritmo acelerado enquanto a inadimplência atinge o maior nível desde 2017.
No fundo, ninguém quer desacelerar. Porque desacelerar revelaria uma verdade desconfortável: parte importante do crescimento automotivo brasileiro hoje não é sustentada por melhora estrutural da economia. É sustentada pela disposição coletiva de empurrar o risco para frente.

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