O avanço da inadimplência no financiamento de veículos no Brasil atingiu o maior nível dos últimos nove anos, mas ainda não foi suficiente para desacelerar a demanda por crédito no setor automotivo. Dados divulgados pela Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras, a ANEF, mostram que o índice de atrasos acima de 90 dias entre pessoas físicas chegou a 5,85% em fevereiro de 2026. Mesmo diante desse cenário, o volume de financiamentos segue crescendo no país, impulsionado principalmente pela busca do consumidor por acesso ao automóvel em um ambiente de preços elevados e juros ainda altos.
Em março, foram financiadas 703 mil unidades entre veículos novos e usados, incluindo automóveis leves, motos e pesados. O resultado representa crescimento de 23,1% sobre o mesmo mês do ano passado e aumento de 27,5 mil unidades em relação a fevereiro. No acumulado do primeiro trimestre, o mercado somou 1,893 milhão de financiamentos, alta de 12,8% na comparação anual. Segundo a série histórica da ANEF, trata-se do maior volume registrado para o período nos últimos dez anos.
Os números mostram que o crédito continua sendo um dos pilares da recuperação e sustentação do mercado automotivo brasileiro. Em um cenário no qual o valor dos veículos permanece elevado, principalmente entre os modelos zero-quilômetro, o financiamento segue como principal porta de entrada para boa parte dos consumidores. O movimento também revela que a demanda reprimida por renovação de frota e mobilidade continua forte no país, mesmo em um ambiente econômico mais pressionado.
A expansão do crédito, porém, vem acompanhada de maior preocupação entre bancos e financeiras. Além do aumento da inadimplência acima de 90 dias, também avançaram os atrasos entre 15 e 90 dias, que chegaram a 6,68% entre pessoas físicas, contra 6,21% registrados há um ano. O crescimento dos índices levou as instituições financeiras a endurecerem os critérios de aprovação, com análises mais rígidas de perfil e capacidade de pagamento dos consumidores.
O reflexo desse movimento aparece diretamente nas taxas cobradas ao comprador final. Embora a taxa Selic tenha recuado recentemente de 15% para 14,75%, a redução ainda não foi repassada de forma significativa ao financiamento de veículos. O setor financeiro mantém postura mais conservadora diante do aumento do risco de inadimplência, principalmente em operações de longo prazo.
Atualmente, a carteira de crédito automotivo no Brasil soma cerca de R$ 550 bilhões, enquanto as concessões mensais giram em torno de R$ 23,3 bilhões, segundo a ANEF. O volume mostra que o sistema financeiro continua operando em nível elevado, mesmo diante da necessidade de maior controle de risco.
Os dados divulgados pela Trillia, unidade de inteligência da B3, reforçam a resiliência do mercado. Em abril, o país registrou 634.587 financiamentos de veículos entre novos e usados, crescimento de 11,8% na comparação com o mesmo mês de 2025. Foi o melhor desempenho para abril desde 2008.
O segmento de automóveis leves liderou o crescimento no período, com alta de 13,3%. O destaque ficou para os veículos novos, que avançaram 21,9% nos financiamentos, enquanto os usados cresceram 10,9%. O desempenho indica que, apesar da pressão dos juros, parte do consumidor voltou a considerar a compra de modelos zero-quilômetro, impulsionada por campanhas comerciais, renovação tecnológica e maior oferta de crédito pelas montadoras.
As motocicletas também mantiveram forte ritmo de expansão, com crescimento de 9,8% nos financiamentos em abril. O segmento continua sendo beneficiado pelo aumento da demanda por mobilidade individual e pelo avanço das atividades ligadas a entregas e aplicativos. Já entre os veículos pesados, o crescimento foi mais moderado, de 3,9%, mas com um sinal relevante para a indústria: os financiamentos de modelos novos avançaram 10,9%, enquanto os usados recuaram 4,6%, indicando retomada gradual da renovação de frota.
Regionalmente, o Sudeste concentrou 42,2% das operações de financiamento realizadas em abril. Na sequência aparecem Sul, com 20,8%, Nordeste, com 19,7%, Centro-Oeste, com 10,7%, e Norte, com 7,3%.
Entre janeiro e abril, o mercado brasileiro acumulou cerca de 2,5 milhões de veículos financiados. As motocicletas lideram o crescimento no período, com alta de 16%, seguidas pelos automóveis, que avançaram 12,7%, enquanto os pesados cresceram 3,9%.
O desempenho mostra que o crédito continua mais disponível do que em anos anteriores, sustentando o ritmo positivo das vendas mesmo em um cenário de juros elevados. Ao mesmo tempo, o aumento da inadimplência indica que o setor financeiro deverá seguir mais seletivo nas concessões ao longo de 2026.
Outro movimento importante aparece nos preços praticados no mercado. Dados da Tabela Auto B3, desenvolvida em parceria com a Bright Consulting, mostram que os preços médios dos veículos usados voltaram a cair em abril após meses de reajustes. A retração média foi de aproximadamente 1,55%, com queda em todos os segmentos analisados.
As maiores baixas ocorreram entre picapes compactas, com recuo de 2,3%, picapes médias, com queda de 2%, e carros compactos, que registraram redução de 1,6%. Já os veículos zero-quilômetro tiveram alta média de 0,7%, puxada principalmente pelas picapes derivadas de automóveis, picapes médias e sedãs.

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