Acordo automotivo mira 2029 e tenta frear avanço das marcas chinesas

Acordo automotivo mira 2029 e tenta frear avanço das marcas chinesas

Brasil e Argentina avançaram na articulação de um novo acordo para fortalecer a indústria automotiva regional até 2029 durante a Automechanika Buenos Aires 2026, realizada na Argentina, com o objetivo de atualizar as regras do setor, ampliar a integração produtiva e atrair investimentos diante da crescente concorrência global e das mudanças tecnológicas no segmento.

A iniciativa foi formalizada por meio de uma declaração conjunta assinada por entidades que representam montadoras e fabricantes de autopeças dos dois países. Pelo lado brasileiro, participaram a Anfavea e o Sindipeças. Pela Argentina, assinaram o documento a Adefa e a Afac. O foco principal é a modernização da política automotiva bilateral, atualmente regida pelo Acordo de Complementação Econômica número 14, com a definição de novas diretrizes antes de 2029 para garantir maior previsibilidade ao ambiente de negócios.

A proposta representa uma mudança na lógica da relação entre os países. Em vez de concentrar esforços apenas na gestão do comércio, o setor passa a defender uma estratégia voltada à organização da produção. A intenção é transformar o Mercosul em uma plataforma exportadora mais competitiva, com capacidade de ganhar escala e disputar espaço em um cenário de avanço das fabricantes chinesas na América Latina.

Entre os pontos centrais da agenda está a especialização produtiva, com foco na complementação entre as fábricas brasileiras e argentinas. A medida busca reduzir a sobreposição de produtos, evitar concorrência direta entre plantas da mesma região e melhorar o aproveitamento industrial. Ao mesmo tempo, o documento prevê o fortalecimento da cadeia de valor local, com estímulo a investimentos em tecnologias automotivas e ao desenvolvimento de sistemas mais sofisticados de autopeças, incluindo soluções ligadas à eletrificação.

Outro eixo importante envolve a harmonização de regras técnicas entre os dois países, com avanço no reconhecimento mútuo de regulamentos automotivos, inclusive no mercado de reposição. O setor também defende a redução da burocracia nos processos aduaneiros nas fronteiras, com o objetivo de diminuir custos logísticos e tornar o fluxo comercial mais eficiente.

Os dados apresentados pelas entidades destacam o peso econômico da integração regional. Brasil e Argentina formam um mercado de cerca de 350 milhões de consumidores e possuem capacidade produtiva instalada de até 5 milhões de veículos por ano. Nos últimos três anos, a região recebeu mais de 22 bilhões de dólares em investimentos. A cadeia automotiva representa cerca de 20 por cento do PIB industrial brasileiro e 8,4 por cento do PIB industrial argentino.

No comércio exterior, o intercâmbio automotivo entre os dois países responde por uma parcela relevante das exportações industriais, variando entre 55 por cento e 70 por cento. O setor também tem forte impacto no emprego, com mais de 1,9 milhão de postos de trabalho diretos e indiretos na cadeia produtiva.

Atualmente, a relação bilateral funciona com base no sistema conhecido como flex, mecanismo que limita as importações conforme o volume exportado sem incidência de impostos. Esse modelo seguirá em transição até 2029. Até junho de 2027, o índice será de 2,0. Em seguida, passa para 2,5 até junho de 2028 e depois para 3,0 até junho de 2029.

A partir de julho de 2029, está prevista a adoção do livre comércio automotivo entre Brasil e Argentina, com o fim das cotas e a liberação do intercâmbio de veículos e autopeças sem tarifas. Diante desse cenário, o setor busca antecipar ajustes estruturais para garantir uma transição mais equilibrada.

Historicamente, a Argentina concentrou a produção de picapes médias, enquanto o Brasil assumiu maior volume em hatches, sedãs e utilitários esportivos compactos. A nova agenda pode aprofundar essa divisão produtiva, consolidando vocações industriais específicas e ampliando a complementaridade dentro do Mercosul.

O movimento indica uma tentativa de preparação para a abertura total do mercado, com o objetivo de chegar a 2029 com uma base mais integrada, eficiente e competitiva, capaz de sustentar investimentos, reduzir a ociosidade nas fábricas e fortalecer a presença regional no cenário automotivo global.

Foto: Divulgação/Fiat

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